O canto de um certo passarrinho
Da série: Crônicas Campineiras
Certa manhã de sábado, quando morava em Campinas, acordei com o barulho de alguém caminhando no pequeno quintal que ficava na pensão onde morava.
Intrigado com aqueles passos, pra lá e pra cá, levantei e fui olhar pela janela. Tratava-se de um dos moradores, o seu Kresto, como todos o conheciam.
Seu Kresto era húngaro e tinha na ocasião 92 anos. Exercitava-se toda manhã, caminhando no pequeno quintal defronte aos apartamentos da pensão.
Quando já estava bem acordado, sai do quarto e seu Kresto havia parado de caminhar. Ele estava banhando-se ao sol. Passei por ele, cumprimentei-o e fui tomar meu café da manhã. Na volta, criei coragem e parei para conversar com ele, coisa que poucos moradores faziam, porque ele era arredio e não conversava com ninguém.
Parado ao seu lado, olhei aquela figura imensa esticada numa cadeira, com uma toalha cobrindo o rosto. Instintivamente, ele percebeu minha presença e disse: “eu adorro ouvir os passarrinhos. Você não?”. Assim, começamos nossa conversa.
Até aquele momento, seu Kresto era para mim um mistério. Um senhor de mais de noventa anos, vivendo numa pensão, sozinho, e de pouca prosa. Poucos ali haviam trocado mais do que duas ou três palavras com ele. Arredio, participava pouco, ou nunca, das atividades na pensão à noite ou aos finais de semana, que eram: assistir ao futebol, jogar cartas, bater papo e tomar café ou cerveja. Ele permanecia quase o tempo todo em seu quarto, fazendo não sei o quê.
“Você já rrreparrou quanto passarrrinhos vem nessa árrrvore toda manhã?” Perguntou-me novamente. Puxei uma cadeira, e comecei a conversar com ele sobre os passarinhos, que ele, carregando de sotaque dizia “passarrinhos”.
Contei-lhe então que levantava muito cedo, às vezes até antes do sol, e que raramente havia prestado atenção naquele detalhe. “Eles adorrram a frrruta da árrrvore”. Olhando para a árvore, que ficava na casa vizinha ao nosso quintal, percebi que se tratava de ameixas, daquelas amarelas, que não crescem muito. São ameixas, disse-lhe. “Ameixas? Sim, conheço ameixas”, falou seu Kresto. “Você tem que prrrestar atenção nestas coisas”, ele falou. Eu, muito arrogante, disse-lhe que a vida era corrida, e que sobrava pouco tempo para observar pássaros comendo ameixas. “A vida passa deprrresa”. Dizendo isso ele olhou no vazio e coçou o queixo. Percebi que seus olhos eram verdes, e que havia certa tristeza acompanhada das palavras. “A vida passa deprrressa”.
Seu Kresto então me contou que havia escrito um livro de poemas sobre os pássaros que ele ouvia e observava toda manhã. “Vou buscarrr prrra você lerrr”. Aquele homem magro, de mais de 90 anos deu um pulo da cadeira e rapidamente estava caminhando a passos largos para dentro do seu quarto, de onde saiu com um monte de folhas datilografadas. “Este é meu livrrro de poesia”. Me passou as folhas, um monte delas, algumas até amareladas. Segurei com cuidado e fui olhando sem me preocupar em parar e ler. “Você prrrecisa lerrr. Fique com ele, depois me devolve.” Puxa, pensei, que responsabilidade, pois tenho certeza que ele nunca mostrou isso a ninguém. Agradeci e levei para meu quarto. Quando voltei, seu Kresto continou a contar coisas sobre sua vida.
Fiquei sabendo então que ele lutou na Segunda Guerra Mundial, que resistiu à invasão alemã na Hungria. Como militar, foi comandante de uma divisão de artilharia pesada, com canhões e bombas. Perguntei-lhe se havia matado alguém na guerra. “Não sei!”, afirmou. Depois me disse: “Talvez eu tenha mandado matar um monte daqueles filhos-da-puta”, e riu muito. Eu ri também. Saiu da guerra sem um arranhão se quer. Depois, me contou que precisou fugir quando os russos invadiram a Hungria. “Aqueles filhos-da-puta, acabararrram com nosso país”. Na época, ele era casado e tinha um filho, que era deficiente físico. Segundo seu relato, largou a família para salvar a própria pele. Nesse momento da narrativa, perguntei-lhe porque não tinha permanecido. Sem dar muitos detalhes ele apenas me disse: “Foi prrreciso fugirrr”. Vagou pela Europa destruída até se instalar num campo de refugiados na Itália, onde conheceu o grande amor de sua vida. Nesse momento, sua narrativa ficou suave, sua voz se enterneceu. “Ela errra italiana, loirrra e linda”. Eles haviam ficado juntos por meses, até que Vitória, a italiana, resolveu embarcar para Nova York, nos estados unidos. E ele, por odiar os americanos, não quis acompanhá-la. Mas seu Kresto, porque o senhor não foi junto? Perguntei-lhe. “Não. Nos Estados Unidos eu não piso”. Sua decisão lhe custou caro, e na noite anterior ao embarque de Vitória, ficou sabendo que ela estava grávida. Aquilo pra ele foi muito triste. Mesmo assim, não mudou de opinião. “Foi um errro Vitorrrr. Uma coisa sem pensarrrr”. Percebi que seus olhos verdes ficaram úmidos.
Até então, uma coisa não saia da minha cabeça: porque esse sujeito veio parar aqui, no Brasil. “Decidi virrr parrra o Brrrasil porrrque acrrreditava serrr o mais longe possível dos rrrussos, aqueles filhos-da-puta”.
Seu Kresto se instalou em Belém do Pará, onde trabalhou por um tempo até juntar dinheiro para comprar uma propriedade, enfiada no meio da floresta. Lá ele se tornou agricultor. Morava sozinho. Disse-me que sentia muita saudade da Hungria, de sua família, especialmente seu filho: Hector. Mas sentia mais falta de Vitória, e adoraria saber como estava seu outro filho. O tempo foi passando até que um conflito com grilheiros, que lhe roubaram as terras, o obrigou a sair do Pará literalmente sem nada. Nessa época, ele já estava próximo dos 40 anos. “Aquilo foi muito difícil. Me ameaçarrram, tacarrram fogo no meu paiol de mantimentos. Até enfrrrentei e atirrrei nos filhos-da-puta... Mas não matei ninguém”. Seu Kresto veio descendo para o sul e se instalou em São Paulo , onde começou tudo de novo. Logo, já acumulara dinheiro suficiente para comprar uma casa; pouco depois, já possuía duas. Mais um pouco, montou um supermercado, na época que existiam poucos. Nessa mesma época, por volta de 1966, viajou de volta para a Hungria. Foi recebido com festa pelos familiares. Matou a saudade de sua terra, mas não ficou por lá, tinha negócios no Brasil, e me disse: “Não tinha mais condições de viverrr com minha esposa”. Curioso, eu perguntei porque? “Tenho verrrgonha de te-la trrraido”. Olhei para ele e nesse momento ele abaixou a cabeça, talvez ressentido.
De volta ao Brasil continuo com seu supermercado e logo abriu outro, ainda em São Paulo. Ele me disse que vez ou outra arrumava uma mulher para sair, namorar, mas nunca se fixava com ninguém.
Nos Anos 80, seu Kresto era um homem rico, dono de quatro supermercados. Viajava todo ano para a Hungria, para onde regularmente enviava dinheiro. Em 1985, criou coragem e foi para Nova York à procura de Vitória e seu filho. Perambulou por lá um mês e nem sinal deles. Voltou para o Brasil frustrado. Ainda naquele época, descobriu que seu contador estava lhe roubando. Depois, descobriu que todos estavam lhe roubando. “Eu fui muito rrruim com os negócios”, me disse. Por fim, faliu e precisou vendes sua rede de supermercados para pagar as dívidas. Só lhe restaram as duas casas. Desiludido com os brasileiros, “são todos uns filhos-da-puta, uns ladrrrões”, alugou as duas casas e se mudou para Campinas, onde acabou alugando um quarto na pensão onde morávamos, “parrra economizarrr, porrrque vou emborrra deste país de filhos-da-puta”.
Nossa conversa durou mais de duas horas. Depois, me disse que havia escrito um outro livro, onde ensinava as pessoas a viverem bem. Fiquei mais curioso ainda e pedi para ele me emprestar, para eu ler. Prometi devolve-lo intacto. Ele me olhou, sorriu e disse: “quando eu terrrminarrr te emprrresto”. Ai, pedi-lhe que adianta-se alguma coisa, uma sinopse, e ele me disse apenas que era um livro que iria ajudar a humanidade a viver melhor. Disse-me também que havia escrito-o inspirado no problema de saúde de seu filho. Nesse instante, percebi que ele se sentia culpado por tê-lo abandonado ainda criança, junto da mãe, e ter fugido da Hungria. “Não foi uma atitude de homem”.
Passado pouco tempo depois de nossa conversa, devolvi seu livro de poemas. E ao fazê-lo, disse-lhe que havia gostado muito, e me propus a converte-lo no formato digital, para, se ele quisesse, imprimi-lo. Ele me agradeceu, mas, desconfiado como era de nós brasileiros, achou por bem dizer-me que um dia iria revisá-lo e entregá-lo a mim para fazer tal trabalho. Porém, nunca mais consegui tirar uma só palavra dele. Nem mesmo quando encontrava-o na cozinha, preparando sua sopa de rim de porco, que exalava um cheiro horrível.
Seu Kresto ainda perambulou pelo nosso quintal todas as manhãs. Tomava seu banho de sol, com a cabeça coberta e os ouvidos atentos ao cantar dos pássaros que comiam as ameixas da casa vizinha, que por sinal, era da mãe do Emil Rached.
Um dia, fiquei sabendo que ele havia se mudado, não para a Hungria, como disse que faria, mas para Nova York. Foi sem se despedir e sem fazer barulho. Saiu de madrugada, apenas com uma pequena trouxa e a roupa do corpo. Levou consigo seus dois livros e poucas saudades do Brasil.
Na manhã seguinte à notícia de sua partida, antes de ir para o trabalho, permaneci um bom tempo ouvindo a algazarra de pássaros no pé de ameixa. E lamentei não ter dito a ele que, sem sua permissão, havia digitalizado seus poemas e enviado para uma editora de Campinas mesmo, que respondeu positivamente e mostrou-se interessada em publicar seu livro.
Eu queria lhe fazer uma surpresa. Foi a maneira que encontrei de persuadi-lo a acreditar que nem todos neste país são filhos-da-puta. Por fim, não respondi à editora e acabei apagando o arquivo, em sinal de respeito àquele senhor que me ensinou a prestar atenção em coisas tão simples como o canto de um pássaro, ou, passarrrinho, como ele dizia.
Boa Vitão!
ResponderExcluirSucesso sempre!