Vitão, lá se vão 60 anos...
A partir de 14 de maio de 2019, a emissora retomou a
apresentação do programa, sendo que o apresentador agora é Marcelo Tass, e o
programa se chama agora “Provoca”.
Tanto no Provocações quanto no Provoca, ao final dos
programas, os apresentadores fazem uma pergunta aos seus entrevistados, que é
algo assim: “Fulano, o que é a vida? ”. O entrevistado responde, e os
apresentadores repetem a pergunta: “Mas, Fulano, o que é a vida? ”.
Sempre me perguntei sobre
o que eu responderia caso tivesse
a oportunidade de ser provocado a responder essa questão.
Meditei um pouco sobre isso. Pensando numa resposta que me
agradasse, mas também tivesse respaldada na minha própria interpretação da
vida. Sendo assim, eu diria que a vida é uma ilusão. Aí, o entrevistador me
perguntaria de novo, e eu daria a mesma resposta: a vida é uma ilusão.
Agora, em 2025, onde eu completo 60 anos de idade, eu
ratifico a minha resposta: a vida é uma ilusão.
Pensando um pouco mais sobre essa questão, na verdade, não é
fácil definir a vida em uma só palavra. Talvez isso seja um mal de
publicitário, tentar se expressar de forma sucinta, e bota sucinta nisso. Porque,
a gente teria que olhar para essa resposta de várias formas. Mas, eu vou
analisa-la levando-se em conta tudo que nos cerca, o mundo biológico, o material
e o filosófico.
Então, a vida do ponto de vista biológico é quase um
milagre. A gente nasce da união de um espermatozoide, que carrega 23
cromossomos de seu pai, e se funde a um óvulo, que carrega os mesmos 23
cromossomos, só que de sua mãe. Detalhe, enquanto o óvulo da sua mãe é um só,
os espermatozoides do seu pai são milhões, e somente um (de uma maneira geral)
vai conseguir penetrar no óvulo e dar início à vida. Portanto, metade de nós já
nasce competindo, e vai seguir assim a vida toda. Agora, se você não teve uma
herança genética muito boa, ou se adquiriu uma doença ou sofreu um acidente que
comprometeu a sua saúde, sua capacidade de competir nesse mundo vai ser
reduzida, mas assim mesmo você poderá “chegar lá”; onde quer que seja.
Do ponto de vista material, a gente é doutrinada a possuir
coisas ao longo da vida. Você deve ter ouvido essa expressão: “fulano foi fazer
a vida em São Paulo”. Ou seja, ele mudou-se para São Paulo para ter melhores
oportunidades de trabalho e renda. E não esqueçamos que vivemos num país
capitalista, onde adquirir bens e consumir coisas sofisticadas é sinônimo de
status, pois alguém já disse, a gente é o que a gente consome. Se eu tenho mais
dinheiro, vou consumir coisas finas, viver numa casona, comer em restaurantes
chiques, passear em carros caríssimos, me vestir à altura de minhas posses. Se
eu sou pobre, vou sonhar com o dia em que vou ter tudo isso, e por vezes,
atravessar uma vida inteira sem conseguir nem mesmo ser atendido adequadamente
numa Unidade de Saúde.
Filosoficamente, a vida é um processo muito complexo que
pode ter múltiplas formas de realização, sendo que o sentido da vida é um
questionamento filosófico que pode variar de pessoa para pessoa (agradeço a
Inteligência Artificial do Google que me forneceu essa resposta).
Vou citar alguns filósofos e suas teses sobre o sentido da
vida. Para Nietzsche, a vida é uma forma de expressão do poder, com múltiplas
formas de realização; para Aristóteles, a felicidade é o sentido e o propósito
da vida; para muitos filósofos, os seres humanos não foram criados para nenhum
propósito. O indivíduo deve produzir sua própria essência.
E ainda para mais alguns filósofos, o sentido da vida é uma
interpretação do relacionamento entre o humano e o mundo.
Aí que eu queria chegar.
Se a vida é uma interpretação do relacionamento entre o
humano e o mundo, para mim, essa interpretação muitas vezes nos leva a uma
ilusão.
É como se a gente vivesse numa grande ilusão, parecida com
aquela do filme “O Show de Truman”, onde o ator Jim Carrey interpreta o papel
de Truman Burbank, que vive num mundo irreal, portanto, numa vida irreal.
Também pode ser que vivamos numa espécie de Matrix, como
naquele famoso filme, onde a realidade do mundo nos é ocultada. E nós, leigos,
estejamos vivendo despreocupadamente nossas vidas achando mil maravilhas.
Então, se a vida se baseia nessa relação do humano com o
mundo, como você está vivendo sua vida? Ou melhor, você deve me perguntar isso.
Minha resposta seria a seguinte (caso você me pergunte): eu estou vivendo a
vida que me coube viver. E você poderia me dizer, mas que porra é essa? Que
resposta mais vazia.
A partir dos 30 anos, a cada 10 anos, eu deixo registrado a
minha experiência nessa vida ao passar dos anos. Quando completei 50 anos,
escrevi um texto chamado “50 anos: e agora Vitão?”. Reproduzo abaixo os três
últimos parágrafos desse texto, numa forma de ratificar o que escrevi há 10
anos, porque, o mundo mudou, mas eu não. Não mudei e não vou mudar minhas
convicções, meus gostos e minha maneira de ver a vida.
Se fosse para resumir minha existência eu diria o seguinte: prefiro o mistério que verdades absolutas; prefiro pecar pelo excesso mais nunca pela omissão; prefiro morrer pobre e culto que rico e ignorante; prefiro amar ao invés de odiar; prefiro que sejam sinceros comigo ao invés de tentarem me enganar; prefiro morrer tentando do que viver acomodado; prefiro incomodar do que ser aceito.
No momento em que eu percorro mais de meio século de vida, afastado de toda religião, mas nunca de Deus, eu vou vivendo tentando seguir algumas das Máximas Délficas, que orientavam os cidadãos gregos para uma vida plena. Citarei somente algumas, pois são 147: obedeça a lei; perceba o que ouviu; conheça a si mesmo; controle sua raiva; exerça prudência; ame a amizade; não culpe ninguém; exerça nobreza de caráter; evite o mal; tenha uma boa reputação; nada em excesso; despreze insolência; deseje coisas possíveis; use sua habilidade; não inveje a ninguém; reconheça a sorte; fale abertamente; domine suas despesas; seja feliz com o que tem; refreie a língua; não tenha violência; viva sem desânimo; conviva mansamente; seja gentil com todos; vele pela amizade; seja grato; busque a harmonia; aceite a velhice; despreze o mal; respeite-se; não faça mal aos outros; como uma criança, aprenda boas maneiras; como um jovem, aprenda a controlar as paixões; em meia-idade, seja justo; na velhice, dê bons conselhos; chegando ao fim, seja sem tristeza e morra sem arrependimentos.
E se daqui há um, cinco, dez ou vinte anos quando eu morrer, quero ser lembrado como nos versos da canção “Peter Gast”, de Caetano Veloso, que diz assim: “Sou um homem comum, qualquer um. Enganado entre a dor e o prazer. Hei de viver e morrer como um homem comum, mas o meu coração de poeta projeta-me em tal solidão, que, às vezes, assisto a guerras e festas imensas. Sei voar e tenho as fibras tensas. Eu sou um. Ninguém é comum. E eu sou ninguém, no meio de tanta gente”.

Comentários
Postar um comentário