Um estranho encontro pautado pela degradação humana
Lou Reed e Metallica juntos definitivamente não são fáceis de ouvir e gostar
Há certos encontros no mundo da música que geraram discos e músicas interessantes.
O Canned Heat se juntou ao bluesman John Lee Hooker e produziu um dos grandes discos de blues de todos os tempos, Heat ´n Hooker, em 1970.
O Run DMC, grupo de Hip Hop, regravou uma canção do Aerosmith, “Walk This Way”, em 1985, e de certa forma ajudou a moldar o funk-metal que surgiu dali em diante.
Recentemente, o veterano roqueiro Lou Reed se juntou ao grupo Metallica e produziram o Cd “Lulu” , com letras de Reed inspiradas na peça de teatro de Frank Wedekind, de 1891.
De certa forma, esse encontro, digamos, inusitado, causou certa estranheza no mundo do rock. Afinal, Lou Reed está para o Metallica como o Samba está para os gringos. Mas será mesmo?
Para quem não conhece a carreira de Lou Reed esse encontro não significa muita coisa. Mas para quem conhece, nem tanto. Em 1980, o mesmo Lou Reed foi convidado pelo Kiss a escrever as letras do que foi o primeiro álbum conceitual da banda, chamado “The Elder”, lançado naquele mesmo ano e, para o desespero do grupo, um fracasso total, uma vez que o público não entendeu nada. Como? O Kiss agora vai fazer música cabeça, ao invés de fazer música para bater a cabeça? Deve ter pensando os atônitos fãs do grupo.
Para quem é fã do Metallica, o disco pode até agradar, pois o peso da banda está lá, devidamente orquestrado pelo grupo; mesmo se as letras causarem certo incomodo. Afinal, a maioria do público do Metallica, nas palavras de Lars Ulrich, não é muito intelectualizo, e é bem possível que desconhecessem Lou Reed.
Para mim, que cheguei até a ver Lou Reed ao vivo, sei que o vovô punk, como é chamado às vezes, gosta de barulho. Lou vem tratando com muita competência, diga-se de passagem, temas que nem sempre são palatáveis ao público, como uso de drogas, sadomasoquismo, prostituição e demência em vários níveis.
O Cd “Lulu” me lembra muito dois dos melhores trabalhos de Lou Reed:. “The Blue Mask”, de 1982, e “Magic And Loss”, de 1992. O primeiro mais pesado e o segundo mais profundo, às vezes sombrio. Aliás, a canção “The Blue Mask” é uma das mais pesadas que eu ouvi no rock, e olha que eu ouvi coisas muito pesadas. Nem tanto pelo barulho das guitarras e instrumentos, mais pela forma como foi cantada e executada, quase aos berros insanos de um Lou Reed que, naquela época, estava se reinventando e, pasmem, estava de bem com a vida, como se diz, longe das drogas pesadas, e amando muito sua ex-esposa Silvia.
A história do Cd é a seguinte: Lou e Metallica tocaram juntos na festa de premiação do Rock And Roll Hall Of Fame, em 2010. Daí, Lou Reed teria convidado o Metallica para juntos gravarem um material que Reed havia escrito. Tratava-se de “Lulu”, de Wedekind.
Lulu conta a história de uma garota que se envolve em muitos casos amorosos e perigosos. Ela ao mesmo tempo seduz homens e mulheres, se prostitui e gosta de ser machucada. Até que encontra seu fim nas mãos de Jack, O Estripador.
Não por acaso, esse mesmo tema vem seduzindo Lou Reed desde os tempos do Velvet Underground. Na verdade, a obra de Lou Reed é recorrente: o universo marginal e degradante das grandes cidades, onde desfilam personagens semelhantes a Lulu.
Quanto ao Metallica, parece que caiu de pára-quedas nessa história. Mesmo assim, não fez feio. A banda está excelente, pesada e rápida como nunca.
Alguns críticos dizem que Lou Reed teria convidado o Metallica para se aproximar do grande público, uma vez que seus trabalhos fazem muito sucesso junto a crítica mas são praticamentes desconhecidos pelo grande público. Lars Ulrich chegou a dizer que não conhecia a obra dele, imaginem o público do Metallica então.
Se houve alguma jogada de marketing eu não sei. Creio que aos 66 anos, Lou Reed usaria outro método para atrair um público novo para si. Algo muito menos distante do que uma peça de teatro escrita no final do Século IX. E o Metallica também não se arriscaria ter a mesma sorte (ou azar) que o Kiss teve em 1980, quando embarcou numa viagem pelo universo lírico de Lou Reed e quebrou a cara.
Para mim trata-se de um encontro entre dois grandes nomes do rock. Duas gerações tão distantes em termos artísticos que causa estranheza mesmo o fato de terem se unido para produzir uma obra tão emblemática numa época em que o público quer mais é consumir o que de mais fácil pode existir. E aí, em se tratando de Lou Reed, nem sempre há garantia de uma viagem feliz... Barulhenta, sim; mas feliz, nunca.
Vitão meu caro, finalmente alguém aparece pra "estudar" o disco Lulu e não para avaliá-lo se é bom ou ruim. Este tipo de análise não me interessa, é fácil para um crítico falar se o disco é legal ou não, o foda é traduzir a obra de uma forma que o leitor, mesmo sem ouvi-la, consegue ter a noção do que o espera. Algo como "ler o som", saca? Pra mim, o disco, pela sua simples e inusitada concepção já valeria a pena, ainda mais porque gosto demais dos envolvidos no projeto, assim seria fácil classificá-lo como "perfeito". Mas não, preferi ouvir uma, duas, três vezes e deixá-lo quietinho ali na minha HD. Daqui a alguns dias tento novas audições e tiro minha conclusão. Pelo menos por enquanto, achei esquisitíssimo e isto, pelo menos pra mim, é ótimo!!! Parabéns pelo blog...
ResponderExcluirBeto "MDS" Bian