Mesmo morto, Lou Reed vai incomodar muito ainda

Neste domingo, 27 de outubro, fui também pego de surpresa pela notícia de que Lou Reed havia morrido.
Minha esposa foi quem me deu a notícia. Ela disse: “morreu um cara do Underground... “, algo assim. Na hora pensei, do undergound? Pode ser qualquer um. Insisti: Você sabe o nome, perguntei a ela. “Não... é um cara do Underground, com 71 anos”. Ela disse. Na hora, eu pensei: será que ela quis dizer do Velvet Underground? E perguntei mais uma vez: foi o Lou Reed? E ela me confirmou: “sim, esse aí mesmo”. Em seguida, ela abriu uma página de notícias e eu pulei na frente no notebook para ver se era verdade. Para minha tristeza, era pura verdade.
Minha esposa não é roqueira, mesmo assim, intuitivamente ele soube definir bem a persona de Lou Reed: um cara do underground, na acepção da palavra.
Fiquei triste porem não a ponto de chorar. Afinal, a morte faz parte da vida, e não devemos ter muitas esperanças em relação a isso, quer dizer, todos nós iremos morrer um dia, então, é melhor estarmos preparados para notícias desse tipo.
Lou Reed foi um dos artistas mais influentes do Rock And Roll. Eu o coloco no mesmo panteão de grandes ídolos como John Lennon, Elvis Presley, Jimi Hendrix e Jim Morrison, por exemplo.
Mas, diferentemente destes ídolos acima citados, Lou Reed foi um anti-herói do rock, porque, ao longo de sua vida artística não teve a mesma penetração junto ao público que aqueles artistas tiveram.
Lou Reed não era pop. Duvido que seus amigos roqueiros saibam mais que duas músicas dele. Ele sempre viveu à margem do sucesso do grande público. Suas músicas não eram fáceis e não permitiam, salvo algumas exceções como “Walk On The Wild Side” e “Perfect Day”, tocar em rádios ou mesmo serem assoviadas numa tarde quente de verão, em meio à natureza, pássaros e plantas numa tarde de domingo.
Com ele, a coisa era mais suja, real e longe do ideal de felicidade que imaginamos.
Lou Reed sempre explorou o mesmo tema em seus discos, desde que fundou, junto com John Cale, Sterling Morrison e Mo Tucker, o The Velevet Underground, ele sempre retratou pessoas que viviam à margem da vida, drogados, prostitutas, miches, travestis, viciados em drogas, veados... Enfim, tudo aquilo que a sociedade, limpa, asséptica, moralista e conservadora gosta de jogar para debaixo do tapete imundo da sociedade.
Por isso, mesmo “Perfect Day”, uma de suas duas canções mais populares, se observada de perto, revela-se uma grande ironia, e a melodia criada por ele, com ajuda de David Bowie e Mick Ronson, soa sinistra, provacadora, sombria, com seus intervalos e beleza disfarçada, uma legítima tentativa de nos engamar apresentando um dia perfeito que, na verdade, esconde uma coisa terrível, nos embalando e nos desarmando para sermos presas fáceis dispostas a se entregar sem resistir.
Porém, longe do público, Lou Reed construiu uma respeitável reputação dentro do cenário do rock. Com a explosão do Punk Rock, em meados da década de 70, sua figura marginal foi uma das fontes de inspiração para aquela geração que queria botar tudo abaixo. E, daquele momento em diante, Lou Reed passaria a ser reverenciado como um dos mentores intelectuais do punk e do que surgiu depois dele.
Porém, ele estava longe de ser classificado como pertencente a um certo movimento ou uma certa tendência. Como compositor criou uma obra que sempre se manteve fiel ao seu propósito, e como músico, Lou não era um grande guitarrista, se compararmos com outros artistas, mas, soube utilizar a guitarra em seu benefício, e explorou todos os gêneros do rock, chegando até mesmo a fazer algumas incursões no Heavy Metal, antes mesmo de gravar um disco junto com a banda Metallica, em 2011.
Para aqueles que não conheceram sua obra, eu dou um aviso: é melhor estar preparado, um estágio junto ao The Velvet Underground lhe fará bem. Depois, se você quiser “caminhar pelo lado selvagem da vida”, como diz uma de suas mais famosas canções, é melhor fazê-lo sem pensar em voltar, porque, uma vez mergulhado em sua obra, você não vai ser a mesma pessoa, e nem ouvirá rock da mesma forma.
Felizmente, eu tive a oportunidade de ver este grande artista ao vivo, em sua primeira turnê pelo Brasil, em 1996. E confesso que foi fantástico. Uma noite para ser lembrada sempre; do dia em que estive perto, muito perto, de uma lenda do rock, e uma das grandes influências para uma centena de pessoas e bandas ao redor do mundo.
O rock, o velho rock vai seguir em frente como sempre faz quando um de seus grandes ícones sai de cena. Isso também é uma coisa natural, da vida. Então, não há motivo para estarmos tristes, porque sempre há uma renovação e a morte, como disse Steve Jobs, Seo da Apple, é o melhor que a vida pôde produzir porque renova, leva o que é velho, no mais amplo sentido que isso pode ter.
A obra se torna maior que seu criador, e, nesse sentido, Lou Reed vai viver ainda por muito tempo, como sempre viveu, à margem do público, presente nas muitas bandas que foram criadas a partir do The Velvet Underground ou mesmo de sua obra solo. Ou ainda, enquanto as sociedades conservadoras marginalizarem aqueles que não se enquadram em seus padrões de moralidade e comportamentos desejáveis, Lou Reed resistirá e será sempre a voz destas pessoas que ninguém quer ter por perto.
Mesmo morto, Lou Reed continuará a incomodar, como sempre fez, e a desafiar a normalidade do mundo e as convensões do rock and roll, se estas coisas de fato existirem.

Em tempo: para quem conhecer as canções de Lou Reed, a Companhia das Letras lançou o livro chamado: “Atravessando o Fogo – 310 Letras de Lou Reed”, uma tradução feita por Christina Schwartz e Caetano W. Galindo.

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