Hey, ho, let´s go!

Desde que comecei a me interessar por Rock And Roll, isso lá no início dos Anos 1980, sempre associei meu gosto musical à leitura de revistas sobre música que, naqueles tempos, eram pouquíssimas.
Eu não sei se com todo mundo que gosta de música é assim. Mas, comigo sempre foi.
Adquiri o hábito de me informar sobre os grupos e artistas que me interessavam. E vejam, em tempos pré-internet, isso não era uma tarefa fácil. Ainda mais se você fosse um garoto fodido do subúrbio, que ganhava a vida como Office Boy, que era o meu caso.
Mas, mesmo assim, eu sempre dava um jeito de alimentar meu vício recém-adquirido: gostar de Rock And Roll; e das histórias por trás das bandas.
Foi comprando discos e lendo revistas sobre música que eu fui me tornando, por assim, num conhecedor de uma matéria que não se aprende na escola: o rock.
Mais recentemente, comecei a adquirir um novo hábito: comprar livros com biografias de grandes artistas. Devo dizer que com a ajuda muito importante de minha esposa, que adora me presentear com livros do gênero. No fundo, ela sabe que a leitura é uma das minhas maiores paixões. E sabe também que eu “devorarei” o livro rapidamente, como um esfomeado diante de um prato suculento de comida.
Mas o que mais me interessa nestes livros não é somente a história desta ou daquela banda ou artista. São os acontecimentos e o cenário que essas histórias de desenvolveram. Podemos chamar também de contexto histórico, se você quiser. Não importa o termo. O que importa para mim é o retrato, o testemunho da pessoa que viveu aquele determinado momento na história, e principalmente, na história do rock.
Então, nas biografias de Eric Clapton e Keith Richards você tem a noção exata de como era Londres nos Anos 1960. Ou ainda, na biografia de Kurt Cobain, você mergulha em Seattle, nos Estados Unidos, antes do Grunge, no inicio dos Anos 1990. E assim por diante. Cada biografia traz o retrato da época em que o personagem biografado viveu.
Nesse início de 2014, eu li “Eu dormi com Joey Ramone – Memórias de uma Família Punk Rock”, de Mickey Leigh, irmão de Joey Ramone, e Legs McNeil, fundador da revista Punk e autor da bíblia do punk “Mate-me Por Favor!”.
O livro narra a trajetória de Jeff Hymman, que passou para a história do rock como Joey Ramone, vocalista do Ramones, a banda mais importante do punk rock.
Então, nem preciso falar que todo um cenário é descortinado a cada capítulo do livro. E, mais uma vez, você tem um retrato de época; de uma época que o rock tinha ainda importância e mexia de verdade com as pessoas.
Você pode até não gostar dos Ramones. Achar que eles nem foram tão importantes assim, que só gravaram músicas numa mesma levada, que os caras eram músicos medíocres e tantas outras coisas que falam (mal) da banda. Eu até aceito. Afinal, ninguém é obrigado a gostar das mesmas bandas e artistas que nos gostamos, não é mesmo?
Mas, como estou há muito tempo nesse negócio de ouvir música e ler sobre rock, tenho minha própria opinião sobre os Ramones. Para mim, eles só perdem em importância para os Beatles.
Você acha que eu estou louco? Pode ser... Afinal, com a idade a gente vai perdendo um pouco mais o juízo.
Embora você não queira mais ler este artigo daqui para até o final, eu vou defender minha tese, citada acima, porque, quero fazer justiça a estes quatro caras: Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy, que tinham o mesmo sobrenome e não eram da mesma família: Ramone.
Porque os Beatles foram importantes para o rock? Você já se perguntou isso, creio. Porque eles renovaram o gênero, principalmente. O que era o rock naquele início dos Anos 1960? Um fenômeno que havia passado. Aí, aparecem aqueles caras e mudam tudo a partir de então. O rock nunca mais seria o mesmo, pode acreditar.
Voltando aos Ramones, o que era o rock em meados dos Anos 1970? De fato existiam grandes bandas que eu adoro, porém, um dos elementos cruciais do rock estava em falta: a rebeldia.
O rock havia perdido uma de suas essências, quer era a simplicidade. Todo mundo queria ser levado a sério, e para isso, produzia discos mais elaborados que agradavam mais a crítica do que o público. Nas palavras de Roger Waters, se não me engano, “todos queria produzir o seu Sgt Peppers”, disco dos Beatles que mudou a música na década de 60.
Antes que você me odeie ainda mais, quero dizer que eu adoro rock progressivo, hard rock, heavy metal, glam rock, etc. Não tenho preconceito sobre nenhum gênero de rock... Na verdade, não gosto de qualquer música que você não consegue definir o vocal de quem canta.
Isso posto, e voltando aos Ramones, e ao livro em questão, fica claro para mim que os caras intuitivamente estavam mudando a o rock sem se dar ao trabalho de pensar sobre isso. Simplesmente botaram em prática a ideia de se tornarem uma espécie de anti-banda de rock, para, desta forma, se opor ao que estava rolando nas paradas de sucesso, e criar as condições necessárias para que os Sex Pistols e o The Clash arrombassem a porta e botassem tudo a baixo.
Porém, como fica claro também no documentário “End Of The Century”, que você pode assistir no Youtube, nunca receberam o devido reconhecimento por isso, principalmente porque nunca foram levados a sério. Sempre foram tratados como uma paródia de si mesmos, uma piada dentro do rock.
Só que é justamente aí que eu percebo a genialidade da banda. Uma clara definição da sonoridade e das letras que podemos dizer serem até ingênuas. Mas, que no fundo, traziam toda a frustação, inconformismo e elementos que influenciaram os caras e os levaram a se opor ao que estava estabelecido como sendo rock, naquela época.
O saudoso Lou Reed disse certa vez que o rock não deveria ser levado a sério. Isso, em minha opinião, foi levado a cabo pelos Ramones, que nunca levaram o rock e nem a si mesmos a sério.
E é por isso mesmo que eles se tornaram um símbolo, pelo menos para mim, daquilo que é realmente importante em nossas vidas: que é, jogar fora tudo aquilo que não serve para nada, não ajuda em nada, e ficar somente com o essencial.
O incrível desta história é que, desta forma, eles se tornaram um ícone da cultura popular. Basta dar uma passeada pelas lojas do Brás, o maior centro de comércio popular do Brasil, e talvez do mundo, e deparar com inúmeras camisetas de todas as cores com o logotipo da banda, criado por Arturo Veja, um design gráfico de Nova York e amigo da banda.

Acredito quem nenhum dos Ramones já mortos, ou seja: Joey, Dee Dee e Johnny, nesta ordem mesmo, imaginavam isso quando subiram pela primeira vez no palco do CBGB, no Bowery, em Nova York, e contaram 1,2, 3, 4... E mudaram nossas vidas para sempre.

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