50 anos: e agora Vitão?




Uma reflexão sobre cinquenta anos de idade


Se alguém me perguntasse há dez, vinte anos atrás como eu gostaria de chegar aos cinquenta anos de idade eu não saberia dizer.
Lembro-me de quando mais jovem, toda vez que vislumbrava o futuro me via montado numa moto, vestido com uma jaqueta de couro e ostentando um bigodão; tipo aquele do Fred Mercury, antigo vocalista do Queen, que morreu em 1991.
Não sei por que eu me imaginava assim. Talvez idealizasse uma imagem de roqueiro de meia idade com pinta de Easy Rider, vagando pelo mundo em sua moto, sem destino.
Hoje, quando de fato chego aos cinquenta anos, não tenho bigode, não possuo motocicleta e, daquela imagem, só resta a jaqueta de couro, que uso vez ou outra.
Também minha vida atual não é em nada parecida com aquele ideal de liberdade preconizado no filme. Costumo dizer aos meus amigos que meu ato de rebeldia atual é tomar suco de goiaba, que, invariavelmente, prende o meu intestino.
Creio que quando somos mais jovens idealizamos como gostaríamos de ser quando mais velhos. Na verdade, nunca me preocupei como seria minha imagem aos cinquenta. Porém, diferente da aparência idealizada, eu chego nessa idade com uma bagagem de vida que nunca imaginei.
Certa vez, uma pessoa me perguntou se eu saberia lhe dizer qual era a minha missão nesta vida. Eu lhe disse que não sabia, mas, a partir do momento que soubesse, eu a levaria a sério. Hoje, se alguém me fizesse a mesma pergunta, eu lhe responderia que é evoluir.
Aliás, não vejo essa como uma missão só minha, mas de todo ser humano. Estou convencido de que fomos feitos para evoluir.
Veja bem, entenda evolução como sendo um trajeto que todos devem fazer. E nesse trajeto, ou caminho, se preferir, vamos acumulando uma série de coisas materiais e imateriais, muitas das quais, podem até nos fazer mal, porém, não podemos simplesmente ignora-las, temos que ir “levando nosso mocó de saudades e esperanças que a vida juntou para nós”, como bem o disse o cantor Elomar nos versos da canção “Cavaleiro do São Joaquim”.
Outra lição que trago é que a vida segue baseada nas escolhas que fazemos ao longo dela. Nada mais simples e ao mesmo tempo complexo que isso.
Pois para mim, o sujeito vem para essa vida com um kit, que eu chamo de “Kit de Sobrevivência Para a Vida”. Nesse kit está nossa herança genética, uma certa inteligência e saúde. Se a pessoa nasce numa família abastada, sorte a dela; se não, acresça ao kit um certo grau de dificuldade, que não a impedirá de seguir seu caminho.
Depois que a gente cresce um pouco, começamos a fazer escolhas, que resultam na nossa vida presente. Talvez saber fazer as escolhas certas seja um dos segredos dessa vida.
Salvo aquelas pessoas que são obrigadas por algum motivo de força maior, como uma doença, um dogma religioso, etc, a grande maioria de nós, escolhe o caminho que quer seguir.
Então, nesse sentido, o meu caminho até os cinquenta anos foi feito baseado em minhas próprias escolhas. O que implica em não responsabilizar ninguém por uma escolha mal feita, ou um passo mal dado. Afinal, como disse, cabe a mim a responsabilidade pelas alegrias e tristezas ao longo da vida.
Também não posso reclamar do kit que me foi dado ao nascer. Talvez o item saúde poderia ter sido melhor... Mas, tudo bem.
Em relação a isso, eu brinco dizendo que na linha de produção lá do céu, no dia em que pessoas com problemas de saúde nascem, ocorre um desvio de processo que é apontado a Deus pelos anjos. Porém, Deus naqueles dias está de ressaca, com uma baita dor de cabeça, e sempre diz aos anjos: “Deixa assim mesmo, a vida se encarregada de consertar”.
Então, eu chego aos cinquenta anos feliz com minhas escolhas feitas ao longo da vida. Se não foram as melhores, pelo menos, elas me fizeram ser a pessoa que sou hoje.
E no caminho de minha evolução, sei que ainda tenho que melhorar muitas coisas e deixar algumas para trás. No momento certo, quando estiver preparado, me desprenderei delas, como um foguete que vai deixando pedaços ao longo de sua subida aos céus.
Se fosse para resumir minha existência eu diria o seguinte: prefiro o mistério que verdades absolutas; prefiro pecar pelo excesso mais nunca pela omissão; prefiro morrer pobre e culto que rico e ignorante; prefiro amar ao invés de odiar; prefiro que sejam sinceros comigo ao invés de tentarem me enganar; prefiro morrer tentando do que viver acomodado; prefiro incomodar do que ser aceito.
No momento em que eu percorro meio século de vida, afastado de toda religião, mas nunca de Deus, eu vou vivendo tentando seguir aquilo que orientava os cidadãos gregos de Atenas, as três máximas para uma vida plena, que são: 1) conheces a ti mesmo? 2) Nada em excesso; 3) toda certeza leva ao infortúnio.
E se daqui há um, cinco, dez ou vinte anos quando eu morrer, quero ser lembrado como nos versos da canção “Peter Gast”, de Caetano Veloso, que diz assim: “Sou um homem comum, qualquer um. Enganado entre a dor e o prazer. Hei de viver e morrer como um homem comum, mas o meu coração de poeta projeta-me em tal solidão, que, às vezes, assisto a guerras e festas imensas. Sei voar e tenho as fibras tensas. Eu sou um. Ninguém é comum. E eu sou ninguém, no meio de tanta gente”.

Comentários

  1. Amigo Vitão: lendo este belo e lúcido texto, concluo que esse negócio de ter cinquenta anos fez muito bem a vc. Somos amigos há muitos anos - privilégio meu - e estive presente em diversos episódios desse rico processo de viver que vc descreve tão bem. Gostaria apenas de acrescentar que o seu jeito de ser, sua autenticidade, acrescentam demais a esse mundo cheio de gente iludida. Gostaria de dizer que vc segue ensinando a nós, seus amigos, e ensinando à vida como é que são as coisas. Abração, companheiro. Saúde, serenidade e sabedoria.

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  2. Que delicia de leitura! Vitor, muitos parabéns!!! Que nunca lhe falte saúde, paz, amigos, trabalho, harmonia, sucesso e bom humor pois sem ele o riso não seria fácil. Feliz aniversário e que venham os próximos 50!

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  3. Querido amigo, lembro-me bem dos seus sonhos de usar jaqueta de couro e de ter aquela moto e de sair por aí sem destino...Mas também lembro-me do menino meigo que sempre buscou ser feliz, ter conhecimento, aprender, conhecer o novo, descobrir-se...e é com estas e outras que hoje eu o encontro com meio século de vida. Feliz e realizado. Casado. Com casa. Vivo. Sabe o que mudou desse homem maduro em relação àquele menino? Nada. Você continua sendo o mesmo garoto. E é isso o que realmente importa...manter viva a criança dentro da gente, como na música do 14 Bis, "Todo vez que o adulto balança ele vem pra me dar a mão...Há um passado no meu presente, o sol bem quente lá no meu quintal...Toda vez que a bruxa me assombra o menino me dá a mão...e assim vai! Bem, desejo que os seus 50 anos sejam apenas números e nada mais, e que aquele menino permaneça vivo dentro de você a lhe levar por vezes até um dos discos de vinil numa estante, sorridente, porque vai fazer o que gosta, sempre!

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