Para todo mal, o capital; para todo bem, também

            Certas notícias veiculadas nos meios de comunicação me chamaram a atenção. Principalmente àquelas que dizem respeito à economia, onde é mostrada a situação de milhares de brasileiros cada vez mais endividados.
            É certo que o homem vive com problemas e em conflito permanente. Desde os tempos de Adão e Eva já é possível notar isso. Adão deveria recusar a maçã e continuar vivendo no paraíso ou aceitar e deixar-se seduzir e comer a maçã e correr o risco de ser expulso de lá? Pois bem. Adão comeu a maçã e foi expulso do paraíso, junto com Eva, que teria lhe induzido a tal ato.
            Parece-me que a história de Adão e Eva cabe bem como metáfora do que vivemos em relação ao consumo, a viver melhor, possuir bens e tentar ter a consciência tranquila mesmo cheio de dívidas.
            Pois, assim como Eva que caiu na tentação da serpente e acabou arrastando Adão para juntos comerem a maçã e, depois, arcar com suas conseqüências, no mundo moderno, o Capital surge como a solução para todos os problemas da humanidade. Três séculos depois que ele – capital – foi aceito e incorporado às sociedades, parece-me que uma ardilosa serpente estava por trás das tais promessas de fortuna e prosperidade que viriam... Mas que de fato não vieram.
            Se hoje assistimos impassíveis noticias de países europeus tendo que rebolar para não se afundar em dívidas, levando à bancarrota suas até então sólidas economias, o que dizer de nós, pobres mortais, que estamos ainda mais vulneráveis ao poder das grandes corporações e do capital.
            Assustou-me uma notícia em especial: que mais e mais pessoas estão endividadas. Os números são alarmantes: de cada 10 pessoas, seis estão endividadas, ou seja, 60% da população devem, não negam, mas pagam quando puderem.
            Ocorre-me que o crédito fácil para comprar quase tudo é mais uma forma do Capital nos possuir. É mais uma vez a história da maçã, da serpente e nós na pele dos Adões e Evas da vida, sendo seduzidos pelas benesses de poder possuir aquilo que desejamos, seja um carro novo, uma TV de última geração, roupas, etc.
Nunca foi tão fácil possuir coisas, mas também nunca foi tão fácil se endividar.
Refletindo sobre isso, percebi que existe uma contradição e um conflito nessa questão. A contradição está no fato de que, com a promessa de vivermos melhor, nos entulhamos de coisas que não nos libertam, mas, sim, nos prendem, nos amarram e nos tornam dependentes desse sistema, o Capitalismo. Assim, o conflito está intrínseco: para vivermos melhor necessariamente temos que consumir mais e nos enchermos de dívidas que nos atormentam e nos tiram o sono.
Este ciclo parece interminável e de difícil solução.
Porém, é inegável que o crescimento baseado no consumo é a fórmula mágica encontrada para aquecer a economia e distribuir a renda. Por mais frágil que seja, nosso país se beneficiou dessa fórmula para alavancar sua economia. O resultado foi tirar muitos brasileiros da miséria e fazer com que mais de 30 milhões ascendessem à Classe C nos últimos anos.
Então, o Capitalismo não é de todo mal, pois nenhum outro sistema poderia ter realizado este fato importantíssimo para a economia brasileira.
De fato, os últimos anos mostraram que apenas aquecendo o mercado interno, nosso país pode distribuir mais a renda e hoje vive um período de calmaria na sua economia. Outrora, tivemos planos econômicos mirabolantes que não resolveram nossos problemas, apenas aprofundaram ainda mais o abismo entre os brasileiros ricos e os pobres.
Mas defender o capital, mesmo quando ele está do lado do bem, é algo difícil de fazer. E isso se torna mais difícil ainda se o sujeito se considera um socialista. Quando isso me ocorre, lembro do meu amigo Arlindo Moreira Sales, pesquisador científico e comunista de carteirinha que resolveu essa difícil dicotomia: ser de esquerda e viver num mundo capitalista. Arlindinho, como era conhecido, dizia: “eu sou de esquerda mais guardo minha carteira no bolso da direita”. Grande Arlindinho, que era mestre em encontrar soluções simples para questões complexas como essa.
Então, nestes dias, parece-me que nos encontramos diante de uma encruzilhada e numa sinuca de bico, pois é impossível nos desenvolvermos sem estarmos atrelados ao capital. Para complicar ainda mais, as sociedades e seus governos tem que se equilibrar nessa equação: crescer, gerar renda, proposperar, mas, ao mesmo tempo estar cada vez mais presos e dependentes do capital. Nesse momento da história do homem, não vejo nenhuma luz no fim do túnel.
Parace que a semelhança com um dito popular mexicano cabe direitinho nesta difícil situação. No México se diz: para todo mal, mescau; para todo bem, também! Mescau para quem não sabe é uma bebida típica do México, mais popular até que a Tequila. Então, para todo mal o capital; para todo bem, também... E que Deus, Buda, Krishina, Jeová ou Alá nos ajude a seguir em frente... Ou, para os menos crentes, uma cachacinha pra ajudar a aguentar o rojão.

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