Novelas para quem precisa; quem precisa de novelas?

Não sou de assistir e acompanhar novelas de TV, seja na Globo ou em outra emissora. Mas também não critico quem o faz, afinal, cada qual deve saber o que é melhor para si em termos de diversão.
Apesar disso, acompanhei alguns capítulos da novela global “Avenida Brasil”, que terminou na semana passada.
Isso pode parecer uma heresia para uma pessoa que se considera bem informada e é crítico feroz dos meios de comunicação. Mas, não me sinto imune ao desejo popular de saber da vida dos outros. Portanto, me entreguei a essa libido desenfreada e sim cometi o pecado de assistir a esta novela sem culpa, nem arrependimento.
Tirando o futebol, nenhum outro espetáculo televisivo tem tamanho poder de atração sobre o público que uma novela.
Do ponto de vista comercial, a novela é para uma emissora um produto que tem seu shelf life bem definido, aproximadamente oito meses. É um grande negócio, estima-se que uma novela custe para a emissora em torno de R$ 35 milhões, e que ela movimenta muitos milhões a mais em verbas publicitárias.
Do ponto de vista social, as novelas são usadas em muitos casos para quebrar paradigmas, auxiliar em campanhas sociais e até mesmo para ajudar a acabar com o preconceito, especialmente em relação ao homossexualismo.
Minha professora de Antropologia na faculdade dizia que para mudar uma ação na sociedade é preciso mudar sua representação. Como um pêndulo, temos nas duas extremidades a ação e a representação, mudando a ação muda-se a representação, e vice e versa.
Tenho percebido que as novelas, especialmente da Globo, em muitos casos, procuram trabalhar na representação para mudar uma ação da sociedade. O que, em minha opinião, não é ruim. Assim, podemos dizer que as novelas tem até um caráter social e auxilia em questões como a do preconceito, por exemplo.
Do ponto de vista dos críticos dos meios de comunicação, as novelas tem um caráter alienante, pois, segundo algumas literaturas, ao transportar o telespectador para uma realidade que não seja a sua, ela baixa sua capacidade de crítica, mantendo a pessoa num estado de letargia diante dos acontecimentos ao seu redor.
Isso também é mencionado em relação aos telejornais que cada vez mais tem um caráter de espetáculo em detrimento ao cerne das notícias, que, em sua maioria, são mostradas já com os filtros ideológicos e políticos da emissora.
O telespectador já cansado de um dia de trabalho, chega em casa e quer mais se desligar dos problemas do dia a dia. Invariavelmente, problemas que ele não quer ser lembrado quando está em casa repousando. Por isso, assistir a uma novela seria uma forma de deixar de lado sua realidade por alguns instantes. Aqui vale uma citação de uma música do Pink Floyd, “Comfortable Numb”, confortavelmente anestesiado; seria esse o estado em que se encontra o telespectador, o que o torna presa fácil de um processo alienante.
Na verdade, não compartilho desta ideia preconizada principalmente pela Escola de Frankfurt, onde pensadores como Marcuse estudaram a fundo a questão dos meios de comunicação nas sociedades e o poder de influência nas pessoas.
Compartilho sim das ideias de Humberto Eco, que ao contrário dos pensadores de Frankfurt, diz que a pessoa se aliena se ela já tem uma predisposição para tal. Ele inclusive diz que não há nada de errado em assistir novelas, filmes, etc, que isso não vai levar alguém a alienação se essa pessoa tem enraizado certos filtros que a impossibilitem de ficar vulnerável ao poder (se é que existe) dos meios de comunicação, especialmente da televisão.
Seja como for, assistir novelas é um hábito e uma paixão de nos brasileiros. Ninguém consegue explicar muito bem de onde vem essa paixão. Ela pode ter nascido com as novelas de rádio, muito populares até a chegada da televisão, isso por volta de 1950. Ao transportarem essas novelas para a televisão, recém criada, estava-se criando um produto que seria muito bem aceito pelo povo brasileiro.
Hoje, muitas novelas são exportadas e exibidas em muitos países mundo afora. Provando a qualidade das produções e o desejo que se tem em acompanhar estes folhetins que tanto encantam o público com seus personagens e histórias, que, em última análise, são universais, o que pode explicar a atração que exerce no público telespectador.

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