A importância da revista Bizz para minha geração

            Assisti no blog do André Forastieri, no portal r7.com, ao documentário sobre a revista Bizz, que foi uma das mais importantes publicações sobre música nos Anos 80.
            A Bizz foi lançada em agosto de 1985, mesmo ano que foi realizado o primeiro Rock in Rio. Não é de se duvidar que a revista tenha surgido para atender um mercado crescente – e carente – de jovens roqueiros. Por isso, e pela qualidade editorial, ela se tornou rapidamente a legítima representante da geração dos Anos 80.
            O rock definitivamente estava tomando o país naquele ano de 1985. A partir de 1982, o Brasil vivia uma onda crescente e o que se mais ouvia era bandas do chamado Rock Nacional, que trouxe à cena grupos como Os Titãs, Paralamas do Sucesso, Ira!, Ultraje à Rigor, Legião Urbana, Barão Vermelho, etc.
            Era preciso dar voz a essa geração que sacudia o país. E a Bizz foi sem dúvida o canal de comunicação e de informação dos jovens daquela época.
            Quando comecei a ouvir rock, isso lá pelo final dos Anos 70, já não existia mais a revista Pop, que foi também um importante veículo de comunicação para a geração anterior à minha. A revista Pop foi vendida entre 1972 e 1979. Nem cheguei a ter sequer um exemplar. Apenas folhei algumas delas em casa de amigos, mais velhos.
            Ser roqueiro no início dos Anos 80 não era uma coisa muito fácil. Primeiro, aqui em Amparo só existia duas loja de discos que disponibilizava muito pouca coisa de rock and roll. Mesmo assim, frequentávamos essa loja com verdadeira devoção, loucos para encontrar algum disco que nos agradasse.
            Em termos de informação, a única fonte era a saudosa revista Somtrês, a qual cheguei a ser assinante. A Somtrês trazia informações sobre equipamentos de som, e disponibilizava uma sessão onde alguns jornalistas resenhavam os discos que estavam sendo lançados.
            Lembro-me de uma edição onde o disco “The Number of The Beast”, do Iron Maiden, foi apresentado. Não dei muita bola, mas, ao assistir o clipe no programa SomPop, da Rede Cultura, lembrei-me da resenha e fiquei horas fuçando entre as revistas até encontrar a matéria onde aparecia o nome do disco, que encomendei na loja Pró-Som.
            Em meados de 1982, foi lançado uma revista chamada Roll, que era totalmente em preto e branco. Essa revista era muito bacana e trazia reportagens interessantes. Lembro-me de ter lido a primeira reportagem sobre o U2 nesta revista. Lembro-me até do título da matéria: “Os novos centuriões”. Infelizmente, a revista Roll não durou muito e logo desapareceu das bancas.
            Então, quando a Bizz surgiu em 1985, existia uma galera que como eu estava ansioso por novidades e carente por informações sobre o cenário rock and roll.
            Lembro-me de ter comprado o primeiro número, que trazia Bruce Springsteen na capa. Infelizmente, não possuo mais essa revista, que, assim como todas as outras que comprei, acabei jogando-as fora. Me arrependo de não ter guardado algumas, principalmente àquelas que traziam entrevistas com alguns artistas que admiro até hoje.
Assim como a SomTrês, cheguei a ser assinante da Bizz por vários anos. O que mais gostava na revista era a sessão “Discografia Básica”. Era a primeira coisa que eu lia quando pegava um novo exemplar. Lembro-me de ter lido textos maravilhosos de discos que infelizmente só cheguei há ouvir muitos anos depois. Agora, mais de trinta anos ouvindo rock and roll, percebo que a imensa maioria dos discos que apareceram nessa sessão da revista eram de fato discos importantíssimos, que devem figurar na coleção de qualquer roqueiro.
A Bizz proporcionava calorosas discussões em mesa de bar. Lembro-me de uma ocasião em que um amigo trouxe a notícia de que a revista traria uma matéria com o Renato Russo onde ele assumia sua homossexualidade. Ficamos estarrecidos. Naqueles tempos isso ainda chocava as pessoas. Cheguei até a duvidar que ele estava falando a verdade. De fato sua informação era “quentíssima”, e a revista trouxe mesmo a tal entrevista com o Renato Russo.
Se fizermos um exercício e tentarmos revisitar o mundo de 1985, veremos que muita coisa mudou. O simples fato de que naquela época não existia ainda a internet, nos leva a pensar na importância de um veículo de comunicação que sintetizava tudo o que rolava no cenário musical.
Se hoje ao assistir o documentário sobre a revista me dá um pouco de saudade daqueles tempos, daquelas bandas e artistas, é sinal de que a Bizz teve muita importância na minha formação cultural. Apesar de não ter mais nenhum exemplar desta revista em casa, trago-a comigo em pensamento, e volto a um tempo em que a vida parecia mais simples, que tudo o que precisávamos era um quarto, um aparelho de som, um disco de rock, uma revista para alimentar nossa fome por informação e a cabeça cheia de sonhos de conquistas... Bons tempos!

PS: Quem quiser assistir ao documentário, segue o link: http://www.youtube.com/watch?v=pg0KuPIXvRE... Bom divertimento! Principalmente se você tem mais de 40 anos...

Comentários

  1. É sempre um prazer ler as crônicas do Vitão, mesmo que às vezes não concordemos com tudo o que está contido em suas linhas. E esse texto é um desses casos que, apesar de bem escrito, sou obrigado a discordar de alguns pontos.
    Jamais deixarei de reconhecer a representatividade da revista Bizz nos anos 80, mas tenho por mim que ela ficou longe de representar o rock como um todo.
    Segmentada e dirigida para o público pop a publicação deixava de lado tudo aquilo que tivesse um som mais pesado e visual agressivo.
    Poucas foram as vezes que li em suas páginas alguma reportagem voltada para as novidades que apareciam no mundo do Hard Rock e Heavy Metal. Quando liamos algo do tipo era falando de alguma banda já consagrada ou contestando implicitamente a qualidade daquilo que alcançava as primeiras colocações das paradas de sucesso. Banda nova de rock pesado, salvo “raríssimas” exceções estavam fora de contexto para os editores!
    Como pode uma revista que se auto intitulava veículo de comunicação de roqueiros ter simplesmente ignorado o movimento Thrash Metal que fervilhava mundo afora com a chegada de bandas que hoje são consideradas clássicas como Metallica e Megadeth? (só pra citar dois exemplos)
    As poucas linhas dedicadas ao fenômeno surgido na Bay Area de San Francisco não mostravam o que realmente estava acontecendo. Gostemos ou não do estilo essas bandas levam hoje dezenas de milhares de jovens e “não tão jovens” mundo afora, sendo invariavelmente atrações principais em qualquer festival.
    Enquanto isso a revista apontava mensalmente “a futura maior banda de todos os tempos” que invariavelmente era alguma banda inglesa que não passavam do terceiro álbum e hoje são denominadas pela VH1 como “One Hit Band”. Nada contra essas bandas, muito pelo contrário! Mas não havia imparcialidade quando se falava do estilo antagônico ao pop.
    Outro ponto era seu principal redator: André Forastieri.
    Sem negar sua qualidade como escritor, sempre questionei seus métodos de chamar a atenção para si. Como seus textos quase nada acrescentavam em termos de musicalidade “rock” ele se via na obrigação de causar polêmica para chamar a atenção. Parecia que o cara sabia de quem era preciso falar mal para ser imediatamente xingado e ameaçado de morte pelos fãs mais ortodoxos. Era exatamente isso que ele queria e daí surgia sua “notoriedade”. Sua habilidade em falar bobagens era e continua sendo seu maior dom.
    Comprei poucas vezes essa revista e em 99% das vezes me arrependi profundamente de ter gasto dinheiro com uma boa revista pop. Sim, POP! Chama la de “revista de rock” já é heresia.
    E pra encerrar gostaria de lembrar alguns versos do velho Raul Seixas na canção “Muita estrela, pouca constelação”:
    O fotógrafo, ele vai documentar
    O papo do mais novo big star
    Pra'quela revista de rock e de intriga
    Que você lê quando tem dor de barriga
    E o jornalista ele quer bajulação
    Pois new old é a nova sensação
    A burrice é tanta, tá tudo tão a vista
    E todo mundo posando de artista
    Dizem que essa parte da canção fazia uma critica à malfadada revista que tem a mesma fonética de um peido: BIZZZZZZZZ.


    Afonso Ellero

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