Berlim Affair - Parte 2

Flores & Espinhos


A noite estava ótima e desejou sair à rua perambular sem destino. Passeou por entre as pessoas e sentiu-se normal. Uma leve brisa volta ou outra lhe acariciava o rosto. É bom poder estar aqui, pensou.
Numa praça havia um café que nunca fecha suas portas. Sentou numa das mesas e pediu algo para degustar. Seu alemão era sofrível, então preferiu falar em inglês mesmo. Olhava as pessoas, observava os casais e por um instante não se importou em estar sozinho.
Uma coisa a mais em Berlim aquela noite logo chamou sua atenção. Tratava-se de uma mulher, negra, que trazia à mão um buque cheio de flores, que ela oferecia às pessoas. Estava vestida de modo simples, mas era lindíssima. Percebeu isso e sentiu uma coisa por dentro, um desconforto que o incomodou. A mulher foi chegando mais próximo, e seu mal estar foi aumentando. Quanto mais próximo, mais seu abdômen se contraia. Enfim ela se aproximou da mesa onde ele estava sentado. Com um sorriso de propaganda, ofereceu as flores a ele. Só compro se você me der seu coração, disse à mulher. As palavras saltaram de sua boca, meio sem controle. Ela sorriu e disse-lhe: eu vendo flores, não vendo esperança. Ele sorriu e convidou-a para sentar. Ela aceitou sorrindo.
Nora era uma imigrante que estava em Berlim há muito tempo. Tempo suficiente para saber o que os homens querem numa noite dessas. Mas, dessa vez seus instintos haviam falhado, pois ele não era o tipo de cara que já cruzou seu caminho, nesse tempo todo que vendia flores nos bares e cafés da cidade. Me diz: você é de onde? Daqui é que não é? Ela sorriu e disse-lhe que viera da Jamaica, e que estava tentando melhorar de vida. Vendendo flores? Perguntou ele. Sim, isso é só um trabalho a mais. Na verdade, eu tenho três empregos. Puxa vida, quanta disposição. Ele disse sorrindo. É necessário, disse ela. Então seu olhar ficou triste e melancólico, e ele percebeu. Olha, eu vou comprar as flores sim. Disse ele tentando agrada-la. Eu não vou vender-me meu coração. Ela disse, e preparou-se para levantar e ir embora. Espera! Onde você vai? Perguntou. Escuta aqui cara, você é muito bonzinho para um Americano, e eu preciso trabalhar. Promete que você vai aparecer amanhã, perguntou ele. Não sei, amanhã eu vou para outra região, não vou passar por aqui. Eu vou estar aqui, e prometo não te chatear mais, ele disse e abriu um sorriso de paz. Ela ficou sem jeito e deu-lhe uma flor. Toma, coloque num copo com água, deve durar alguns dias. O suficiente para você voltar? Ele disse estendendo-lhe uma nota. Já lhe disse, não vou vender meu coração.
Então ela saiu e ele acendeu um cigarro e acariciou a flor vermelha em sua mão.
Todas as noites ele estava lá, esperando por ela e suas flores, mas ela nunca aparecia. Depois de uma semana ela apareceu, e parecia mais linda ainda. Dessa vez, porém, ela não trazia flores, o que ele estranhou. Oi... Voltei! Disse-lhe. Sente-se, quer beber o quê.
Naquela noite eles conversaram e se divertiram pra valer. Ele a levou numa discoteca e dançaram a noite toda. Quando o dia já estava se preparando para aparecer, ele a convidou para ir até seu apartamento. Então, seus corpos suados se entrelaçaram e se enroscaram num frenesi delirante até o cansaço se abater sobre os dois e a euforia dar lugar a um sono profundo.
Quando ele acordou, percebeu que o dia já se transformara em noite e que Nora havia partido. Na mesa da pequena cozinha do apartamento apenas um bilhete onde ela dizia: “Rosas têm espinhos, por isso, cuidado ao segurá-las”.
Alguma coisa lhe dizia que não há veria mais. Custou a acreditar nisso, mesmo após 15 noites esperando por ela naquele café que nunca fecha suas portas.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Vitão, lá se vão 60 anos...

Plágio, homenagem ou simples coincidência?

O canto de um certo passarrinho