O Retorno
Com muito cuidado ele entrou no seu carro. A rua estava escura, ninguém acreditaria que ele pudesse cair fora, especialmente depois da merda toda que aprontou. Mas ele já havia escapado de cada enrascada e até da morte certa tantas vezes que duvidar que conseguisse fugir, não era uma boa aposta.
O plano estava dando certo. A noite estava calma e havia poucos corpos vagando pela cidade àquelas horas. Ele tinha certeza que os caras que queriam sua cabeça não o achariam, nem o incomodariam. De certo, tomaria o café da manhã numa lanchonete qualquer à beira estrada. Numa estrada bem longe desse lugar.
Seguro, dentro do seu carro, cada vez mais perto da saída da cidade, ele pode pensar melhor no lance todo, naquele dia errado.
Que grande cagada! Pensou. O sujeito demora um tempão para conseguir ganhar um certo respeito dentro do crime. Suja suas mãos muitas vezes com sangue de gente que nunca viu. Agüenta um monte de filhos da puta que só querem lhe esfolar - se você bobear -, e aí, quando as coisas estão melhorando, e a grana ta entrando mais fácil e menos suja de sangue, o cara perde a cabeça e põe tudo a perder. Uma pena. Merda! Merda! Merda! Pensou ele.
Acendeu um cigarro e agora mais calmo, fumou olhando as últimas luzes da cidade que estão se distanciando no espelho retrovisor do carro. Ele pensa em relaxar... Relaxar não! Que relaxar? Como ele pode relaxar se acaba de lembrar que esqueceu uma coisa muito importante. Uma coisa que não pode deixar para trás de jeito nenhum. Jogou fora o cigarro e pisou forte nos freios. Ficou um tempo muito longo esmurrando a direção do veículo e se odiando por ter esquecido sua enorme mala de dinheiro no apartamento da prostituta que lhe deu cobertura.
Pensou mil coisas possíveis que a puta pudesse fazer com seu dinheiro. Pensou na vagabunda se entupindo de drogas às custas da sua suada poupança. Pensou em como pode ter simplesmente esquecido aquela droga de mala que ele sempre carregava consigo, onde quer que estivesse. Desacreditado de si mesmo, teve vontade de matar-se. Passado a ira, avaliou friamente a situação. É possível que a puta nem tenha percebido a mala em seu apartamento, pensou. Olhou para o relógio e contou as horas que faltavam para o dia amanhecer. Daria tempo para voltar até lá, pegar a mala e sair sem ser incomodado. Virou seu carro e rumou de volta pra cidade.
No caminho de volta, checou as armas que estava carregando. Tudo certo! Dá pra fazer um bom estrago, pensou. Confiando na sua sorte e mais ainda nas suas habilidades, rapidamente foi percebendo a cidade que se agigantava na sua frente. Vai dar certo, vou sair dessa numa boa. Chegou até a falar isso em voz alta, para certificar-se de que estava confiante.
Algum tempo depois ele pára o carro próximo ao local onde havia se escondido por alguns dias. Nenhum movimento que o valha. Alguns carros passando sem menor importância. Permaneceu alguns minutos dentro do carro fumando e olhando para a janela do apartamento da prostituta. Nada se movia lá dentro. Nem uma luz acessa por engano que denunciasse uma armadilha. Observou que não havia nem um carro conhecido ou suspeito por perto. Bom sinal, pensou. É hora de agir.
Saiu do carro e caminhou na direção do prédio. Olhos e ouvidos atentos, arma em punho e a sensação que precede qualquer ação arriscada. Ele conhecia bem esse sentimento há muito tempo.
Na portaria do prédio, o velho porteiro assistia à TV e mascava um palito de dentes. Como já estava acostumado com o entra e saí de pessoas ali na madrugada, nem se importou com sua presença. Ele passou por ele e olhou-o fixamente nos olhos, como se quisesse intimidá-lo. Mas o velho porteiro só temia mesmo era a Deus, que um dia iria lhe castigar, isso ele tinha certeza.
Chegou até o andar do apartamento onde estava a prostituta e sua mala. Parou em frente à porta e tentou ouvir algum som vindo de dentre dele. Nada. Amaldiçoou a si mesmo por ter vacilado e por ter que estar de volta neste lugar. Abriu lentamente a porta que havia deixado destrancada. Tateou por entre os móveis da sala minúscula até se lembrar que havia deixado a mala embaixo da cama do quarto, onde estava a puta que nem havia percebido sua ausência.
Abriu lentamente a porta do quarto, com o mínimo de barulho possível. Deitou no chão e rastejou até sentir que estava próximo da cama. Era possível ouvir a respiração de uma pessoa deitada na cama. Passou sua arma para a mão esquerda e foi procurando pela mala até encontrá-la. Puxou-a lentamente como se ela pesasse muito. Continuou rastejando até sentir a porta a sua frente, Levantou-se e saiu do quarto como se nunca estivesse entrado nele. Embora estivesse suando, sentia-se mais aliviado. Tratou de sair logo do apartamento. Mais uma vez, deixou a porta destrancada.
Já no corredor do prédio, acendeu um cigarro e sentiu-se satisfeito pelo seu feito. Ainda sou bom nessas coisas, pensou. Muitos homens haviam morrido sem sentir sua presença, fosse dentro de suas casas ou apartamentos. Tinha um talento especial para executar suas vítimas na calada da noite. Quando estava próximo dos últimos degraus para a saída do prédio, ouviu vozes vindo da portaria. Parou imediatamente. Ouviu então o velho porteiro lhe descrever para alguém. Sim, sim, esse homem que vocês estão falando, que tem olhos parecidos com os de gatos, está aqui sim, aliás, ele acabou de entrar novamente, faz pouco tempo, disse o porteiro. Fui descoberto, pensou.
Antes mesmos dos homens começarem a subir as escadas, ele desceu atirando na direção deles. Eram tiros certeiros que não deixaria ninguém vivo. O que estava a frente foi alvejado na cabeça, o segundo levou duas balas no peito e o terceiro, mesmo chegando a disparar em sua direção, recebeu vários tiros até que tombou morto. Por sorte, ele só recebeu um tiro de raspão no braço esquerdo.
Recuperado, passou pela portaria e procurou pelo porteiro dedo-duro, mas esse se encontrava trancado dentro de um banheiro. Desistiu do porteiro e antes que os hospedes começassem a acordar e que chamassem a polícia, ele pretendia estar bem longe dali.
Entrou no carro rapidamente e quando estava colocando as chaves para dar a partida, sentiu o cano de uma arma encostar na sua cabeça. Agora acabou cara! Ouviu uma voz dizer isso e fechou os olhos esperando pelo estampido que arrebentaria seus miolos. Nada parecia ser tão demorado como a espera da morte.Bam!
Acordou assustado com o barulho da arma que caiu da sua mão. Estava suado e ainda meio confuso quando percebeu que tudo havia sido um sonho. Olhou e viu que a mulher deitada ao seu lado nem havia se incomodado com o barulho. Levantou, acendeu um cigarro, abriu a janela do motel e certificou-se que estava bem distante e fora do alcance dos bandidos que estavam a sua procura.
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