Berlim Affair - Parte 4
Encontrando um Duque
Apaixonado pela noite de Berlim, ele não conseguia se concentrar no trabalho. Só queria sair e ir a Boates, bares, danceterias e tudo que estivesse disponível. Assim, as noites pareciam que não tinham fim. Foram muitas delas atravessadas em badalações alucinantes. Também foram muitas as pessoas que conhecera nessas noites ensandecidas: traficantes, viciados, prostitutas, garotas estrangeiras, negros, orientais, o mundo parecia se encontrar em Berlim.
Chamou muita sua atenção certos lugares onde se ouvia uma música estranha, que parecia ser feita por máquinas, não parecia humana. Ficou impressionado com esse tipo de música, muito diferente do que estava nas paradas de sucesso.
Foi se embrenhando mais e mais nas coisas que Berlim oferecia, e era tudo novo, fresco e inexplorado. Diferente de tudo aquilo que vivera até então.
Numa dessas danceterias conheceu um sujeito e logo ficou impressionado com sua inteligência. Além de ser um tipo pouco incomum, o que mais o intrigava era sua classe e elegância. Em meio à barbárie de cabelos, jeans e todos os acessórios da moda até então, o sujeito se vestia de branco, apertado num termo bem cortado, com um chapéu meio caido e um bastão com esmeraldas. Era um lorde em meio àquela profusão de índigo e blues.
Foi numa noite dessas que resolveu convidar seu novo amigo, que o acompanhava numa boite, para uma conversa num lugar reservado. Todas as garotas ali conheciam-no. Sempre amável, ele era carinhosamente chamado de Duque. Sentaram numa das mesas reservadas aos casais mais apaixonados. De fato, havia muito deles ao redor. Nem ele nem seu amigo se importaram, afinal, sabiam como eram essas coisas.
Você me diz que conhece Berlim há pouco tempo? Perguntou Duque. Sim, realmente estou há pouco tempo aqui... Mas estou adorando, é um lugar incrível, disse. Sabe, Berlim e apaixonadamente decadente; por isso adoro viver aqui. Duque acende um charuto e traga longamente. Eu estou a trabalho, mas não consigo parar de andar por aí, ele disse. “Poupe seu tempo e gaste-o com o que a vida tem de melhor”, assim dizia meu velho pai. Permita-me uma pergunta, disse. Você não é alemão? Duque respondeu: Não, sou britânico, mas estou há tanto tempo aqui que já sou quase um deles. Eu fiquei impressionado com sua elegância, tenho que te confessar. Duque sorriu levemente e sugeriu que pedissem uma bebida.
A conversa foi se alongando, alongando e logo os dois estavam muito à vontade, sorrindo, se olhando e se admirando. Duque então usou sua diplomacia e desvencilhou uma garota que se aproximara dele. Com muita classe ele a fez perceber que, naquela noite, o Americano boa pinta tinha dono.
Assim, quando os ponteiros se alinharam e avisaram que era quatro da madrugada, Duque sugeriu continuarem o papo em seu apartamento, que ficava próximo, em Shonberg. Ele aceitou, como aceitaria qualquer companhia naquela noite.
Chegando ao apartamento de seu novo amigo, logo ele percebeu que Duque se tratava de um grande artista. Quadros emoldurados enfeitavam uma sala ampla e bem arruda, cercade de móveis modernos, que contrastavam com seu estilo retrô de se vestir. Eu conheço esse artista! Afirmou ele a Duque. É um grande artista local... Já sei: Heckel, não? Disse-lhe sem deixar o amigo terminar sua frase. Exatamente, disse Duque. Vejo que meu amigo americano esteve visatando galerias de artes nos últimos tempos aqui em Berlim. Sim. Esses quadros são seus? Perguntou a Duque. Sim, são meus... Mas, eu não sou um grande artista, quisera ser pelo menos um grande conquistador. Duque riu e lhe ofereceu uma bebida.
Depois, como num passe de mágica, se viu dançando ao som de Billie Holliday. E a última lembrança que ele tem dessa noite foi que estava deitado numa cama enorme, toda branca, e na sua frente uma luz muito forte delineava a silhueta de um homem, que estava nú, com um chapéu meio caido de um lado da cabeça, e com um bastão forrado de esmeraldas, que brilhavam refletindo sua luz no teto do quarto.
As lembranças dessa noite não o perturbaram a ponto de se sentir mal com o que aconteceu. Estava em Berlim a trabalho, mas tudo poderia acontecer.
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