Ghandi sucumbiu à globalização
Assisti ontem um documentário na TV Educativa, que faz parte de uma série chamada: “Democracia, o quê?”. É uma série superlegal que mostra as contradições em relação à democracia de alguns paises.
No documentário, um repórter (não sei se inglês, francês ou holandês) refaz o caminho percorrido por Ghandi na Marcha do Sal, aquele episódio em que ele e seus seguidores marcharam 400 quilômetros até o mar, desafiando o governo colonial britânico. Enfim, o tal repórter visita todas as cidades por onde eles passaram, e procura por pessoas que participaram da marcha, tentando descobrir o mito e o significado de Gahndi para seu povo, mais de 60 anos depois de sua morte e da libertação do julgo britânico.
Ao percorrer tal trajeto, o repórter vai se surpreendendo (e nos surpreende) com a realidade que impera na Índia hoje. Além da miséria visível, ele percebe (e nos podemos ver) que, passado esse tempo todo, Ghandi virou uma figura folclórica entre os indianos, sua imagem e seus ideais estão em toda parte, mas, ninguém mais se interessa pelos seus ensinamentos. Essa foi umas das mais tristes constatações do repórter. As pessoas, mesmos os que se dizem seguidores dele, são, na sua maioria, intolerantes com muitas coisas da sociedade indiana, por exemplo: o ódio aos muçulmanos. Tem um senhor que aparece e dá um depoimento e se diz seguidor dos ensinamentos de Ghandi, mas, ao ser perguntado pelo repórter sobre qual o grande problema da Índia, ele não titubeia: “os muçulmanos são uns demônios”. O repórter fica atônito; ele não esperava isso de um seguidor de Ghandi. É uma grande contradição que permeia o filme todo. Ghandi não queria ser venerado como um Deus, mas, contra sua vontade, templos foram erguidos, e hoje estão abandonados ou fechados, a sete chaves, para ninguém entrar e mesmo que estivessem abertos, ninguém se interessaria por faze-lo. O repórter constata que há um esforço do atual governo em “apagar” da memória a figura de Ghandi, e seus ensinamentos. Isso parace improvável, especialmente por se tratar do grande líder da luta pela independência, mas é uma verdade constatada: Ghandi sucumbiu à globalização.
O que mais me impressionou foi a questão da divisão de classes. Lá, existem as Castas Superiores, e as Castas Inferiores, sendo que essa última não tem direito a nada, ou melhor, tem sim, direito a viver na miséria e servir subserviente às castas superiores. Só para se ter uma idéia, eles são proibidos até de entrarem nos templos religiosos. São obrigados a rezar - para o mesmo Deus das Castas Superiores – à distância. Nas festas, eles são deixados literalmente do lado de fora, barrados por cercas e alambrados. O repórter pergunta a uma pessoa da Casta Superior porque existe essa divisão, é o cara diz que os “inferiores” não tem educação, não se comportam como deve ser; sabemos lá o que isso quer dizer. Tem até um sujeito, nascido nas Castas Inferiores, que foi eleito democraticamente como prefeito, ou algo assim, na sua cidade. Tentaram de toda forma tira-lo do poder, mas, devido a um princípio constitucional, ele permanece no cargo. Isso é uma coisa que não acontece nunca, ele é uma exceção mesmo, pois quem manda e governa são os representantes das Castas Superiores. Democracia lá é de cima-pra-baixo. Nos 400 quilômetros que o cara andou, somente numa cidade Hindus e Muçulmanos, de 18 etnias diferentes, convivem pacificamente e em harmonia. Isso, o repórter não viu em outra cidade da Índia, pelo menos naquelas que ele visitou.
Outra coisa que me assustou foi à quantidade de agricultores que, nos últimos anos, cometeram suicídio. No total, mais de 100 mil acabaram com suas próprias vidas. Porque a globalização inviabilizou o comércio de seus produtos, e a maioria deles se viu endividados, e sem condições de competir com os produtos de outros países, que recebem subsídios de seus governos. Uma coisa terrível. Famílias inteiras cometeram suicídio, pois não tinham mais condições de honrar seus compromissos financeiros.
Nesse contexto todo, Ghandi é só uma lembrança de um tempo em que a vida era difícil, mas havia uma esperança, um sonho, e mais importante: havia o inimigo: os colonizadores britânicos. Hoje, como diz o repórter: “Os novos colonizadores são o próprio povo indiano”, que se afastaram totalmente daqueles ideais preconizados por Ghandi, e vivem os tempos modernos da era global. Tem um cara que diz mais ou menos isso: “Ghandi não teria mais vez num mundo como o de hoje... Suas palavras não fazem mais sentido na vida que levamos hoje em dia... São só palavras bonitas, mais nada”.
Mentalmente, fiz um paralelo com o Cristianismo e os ensinamentos de Jesus, que, na sua maioria, são muito parecidos com os de Ghandi: amor ao próximo, tolerância e não violência. Sei que esse paralelo não é assim tão simples, mas fiquei imaginando o por quê a palavra de Cristo se propagou por tanto tempo, e a de Ghandi, está desaparecendo. Cheguei a uma conclusão não muito ortodoxa, nem tão pouco correta. O ocidente que incorporou o cristianismo, era terra fértil para um doutrina que pregrava o amor entre os homens, devido ao seu apelo de um bem maior a espera dos homens e mulheres corretos. Também o fato dos discípulos terem dado prosseguimento à sua doutrina contribuiu nesse sentido. Ao contrário, Ghandi parece não ter deixado discípulos tão veementes, e suas promessas eram voltadas para a vida aqui na terra, ou melhor, lá na Índia, por tanto, seu apelo era menos duradouro, mais difícil de ser comprovado, ao passo que, ao morrer, o cristão tem a esperança de que aquilo tudo que Cristo lhe disse seja verdade... Quem viver, ou melhor, quem morrer vai poder constatar.
O repórter encontra um único remanescente daquela marcha, ele tinha 102 anos, e conheceu Ghandi pessoalmente. Ele chega a conversar um pouco com ele, e agenda outro dia para continuar a conversa. Mas, o sujeito morre, e ele fica sem as respostas que tanto queria. Isso até me pareceu uma coisa simbólica: uma última voz que se cala, deixando um vácuo e a certeza de que os tempos são outros. Por fim, o documentário acaba com as imagens de uma manifestação de trabalhadores que reivindicam melhores condições de trabalho e renda. Um senhor de uns 60 anos, escala uma estátua de Ghandi e pendura um colar em seu pescoço, os outros o aplaudem. Não sei o que isso significa, e creio que o jornalista quis usar essa imagem para fazer-nos pensar em algo do tipo: mesmo improvável, Ghandi ainda possa inspirar seu povo a retomar sua luta.
Para terminar, uma vez que me alonguei além do que eu mesmo me propus, dormi a noite de ontem (16/10/2007) com o coração cheio de tristeza, e acordei essa manhã um pouco mais triste como de costume. Afinal, não é todo dia que se constata que coisas como essas estão acontecendo no mundo. Um mundo cada vez mais vazio e cruel, dominado pelos interesses dessa entidade chamada Mercado, que, seja aqui ou lá na Índia, ou mesmo, em qualquer outra “democracia”, com aspas mesmo, está à mercê de suas garras e de sua fome avassaladora, que não poupa nem mesmo grandes seres humanos como Ghandi, ou quem quer que seja, que ouse propor que há sim uma esperança para nossa humanidade; mesmo que isso ecoe somente nos ouvidos de quem está tombando nesse campo de batalha.
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