Berlim Affair - Parte 5

Eficiência Alemã

Depois de muito badalar por Berlim, conhecer pessoas e se perder pela noite em longas caminhadas seguidas de visitas em cafés, livrarias e praças escuras frequentadas por trupes de junkies decadentes, ele resolve – enfim – se dedicar ao trabalho.
Organizou seus contatos, marcou reuniões e foi de fato fazer o que era sua obrigação naquela cidade. Os dias estavam passando rápido demais, e logo as cobranças viriam. Queria resolver tudo muito rápido, mas sabia que negócios não se resolvem tão rápido assim. Então, tratou de se acalmar e pensar objetivamente o que fazer.
Voltar ao trabalho significava também voltar aos afazeres domésticos, como: arrumar as roupas, que estavam amontoadas pela sala, quarto e até cozinha do apartamento. Então, numa noite em que estava levando suas roupas para serem lavadas na lavanderia do prédio, conheceu Esther, que também morava no mesmo edifício.
O encontro foi bastante casual. Ela estava esperando suas roupas serem lavadas quando ele se aproximou e disse que não sabia que tinha alguém à essas horas lavando roupas. Esther lhe disse que logo a máquina iria parar e ele poderia se utilizar. Então ele perguntou se ela era alemã. Sim, eu sou... E você deve ser americano, não? Disse-lhe Esther. É tão visível assim? Ele perguntou em meio a um sorriso. E que você deixou cair seu passaporte e ele se abriu, veja? De fato, seu passaporte estava no chão aberto. Ele então riu e disse que estave procurando por ele, e já estava descrente que iria encontrá-lo. Você vive perdendo coisas pelo caminho? Disse-lhe Esther. Mas sempre encontro algo novo que me agrade, ele disse. Esther ficou sem jeito e virou o rosto para rir sem que ele visse. Olha, eu estou no quinto andar, no número 54, se você quiser, podemos continuar nossa conversa lá, até podemos beber alguma coisa, ele disse. Se minha filha estiver dormindo ainda, eu posso até aparecer, disse Esther. Filha? Você tem uma filha? Perguntou ele. Eu já fui casada, mas meu marido morreu tentando atravessar o muro, éramos de Berlim Oriental. Puxa, isso foi horrível, ele disse. Já faz tempo, nem me lembro mais. Eu estava grávida, ela nasceu aqui, livre. Disse Esther. Então, ele sentiu uma profunda admiração por ela, imaginou quantas dificuldades deve ter passado. Desculpe se te chatiei com isso, disse. Não tem problema. Você tem vodka em casa? Se quiser eu levo uma garrafa. Não é má idéia. Esther saiu com suas roupas em um cesto e antes de subir as escadas se virou e deu um sorriso para ele gritando: você tem gelo?
De volta para seu apartamento, ele se sentiu um idiota ao verificar que não havia gelo na geladeira. Mesmo assim, nada que um pouco de soda não resolva.
Esther apareceu uma hora e meia hora depois e estava vestida de uma forma simples, mas elegante. Trazia uma garrafa de vodka e gelo. Sabia que você não teria isso aqui, ela disse. Por que demorou? Perguntou ele. Fui comprar a vodka. Ele ficou mais encantado ainda com ela, e teve a certeza de que sua estadia em Berlim deveria demorar muito ainda.

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