Berlim Affair - Parte 3

Pequim revisitada

Chegou à galeria de artes a tempo suficiente de ficar impressionado com a exposição de Erich Heckel. Eram obras incríveis. O quadro que mais lhe chamou a atenção foi: Roquairol. Algo nele tocou fundo sua alma ocidental.
Estava olhando para o quadro quando uma voz feminina lhe disse alguma coisa incompreensível. Desculpe, você disse alguma coisa? Perguntou ele a uma garota oriental que estava com os braços cruzados e que sorriu ao perceber seu embaraço. Eu lhe disse que esse é o meu preferido, disse-lhe a garota. Sim, também é o meu... Quer dizer, são todas obras lindíssimas. Heckel foi um grande artista alemão, suas obras impressionam ainda mais quando pensamos que elas foram criadas no começo do século. Disse a garota. Uau! Eu pensei que ele fosse atual, ele disse. Suas obras não perdem a força e sempre estão em evidência. Você entende muito sobre ele, disse. Na verdade, disse a garota, minha tese de doutorado foi sobre suas obras. Impressionante... Doutorado... Eu nem consegui terminar o meu mestrado. Ela sorriu. Mas você sabe apreciar, isso já é o bastante. Com licença: posso te convidar para um café ou algo mais apropriado? Perguntou ele. É claro; que tal um drink?
Conversaram por horas sobre o mundo das artes plásticas. Também, em pouco tempo, ele ficou sabendo tudo sobre ela: ela era chinesa, chamava-se Hiany, estudava em Berlim e deveria retornar para Pequim assim que seu doutorado terminasse. Adoro os orientais, ele disse. Por que? Perguntou ela em meio a um sorriso. Porque vocês são do outro planeta, são muito diferentes de nós, os ocidentais bastardos, ele disse. Ela riu. Ele riu de suas próprias palavras e pensou que era um bom começo. Você é Americano? Somos inimigos então? Disse isso em meio a um sorriso largo e fraterno. Aqui é território neutro, podemos conviver em paz, ele disse. Escute, vocês comunistas são esquisitos, tudo igualzinho, roupas iguais, caras iguais, tudo... Vocês capitalistas são estranhos: roupas muito diferentes, costumes estranhos, se preocupam demais com dinheiro, ela disse, e continou a rir. Vocês comunistas adorariam ser materialistas, ele disse e riu. Nós adoraríamos sermos incosequentes, como vocês. Os dois riram muito. Eu poderia te dar uma televisão, te dar olhos azuis, te presentear com o azul do céu, ele disse. Eu vou fazer você marchar, entoar cantos de trabalho e depois eu deixarei você exilado da coisa que você mais gosta, ela disse, e parou de rir. Ele riu um pouco, mas depois assumiu um ar sério. Eu quero você na minha cama essa noite, ele disse. Não vai haver muros entre nós, disse-lhe ela.
Assim, o ocidente e o oriente se encontram num quarto perdido em Berlim, numa noite fria, contrariando o clima quente dentro do apartamento. Como um explorador, ele percorreu o corpo da garota chinesa procurando por algo inusitado. Ela acariciou seu corpo magro à procura de alguma razão para amar tantos os ocidentais. Eles permaneceram se explorando por muito tempo, até que a noite varreu-os para debaixo das cobertas.
Na manhã posterior ao encontro, o clima ainda era frio o suficiente para ninguém menos avisado se arriscar botar a cara fora de casa. Acordaram e logo estavam se amando novamente. Eram gemidos incompreensíveis em meio ao clima ruidoso das grandes metrópoles. O vento fazia um galho de uma árvore próxima arranhar a janela do apartamento. Não se importaram; a natureza tem seus meios de se comunicar. Porém, era um aviso, e ela percebeu que já era hora de deixar o refúgio e voltar para sua universidade. Ele insistiu que ela ficasse um pouco mais. Mas, ela não podia mais brincar de descobrimentos; era hora de retornar aos afazeres.
Promessas de reencontros que nunca existiram. Promessas de amores que nunca se concretizaram. Assim, logo ele estava novamente perambulando pelas ruas da cidade à procura de sua garota chinesa.
Nunca mais uma garota chinesa. Nunca mais explorar o oriente sem medo do desconhecido. Tragou um cigarro e pensou: malditos comunistas.

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